Tenho 23 anos e ainda moro com os meus pais. Não é que não pudesse pagar uma renda — poderia, sem problema. É que não quero.
Quando alguém me pergunta por que ainda estou em casa a esta idade, a resposta curta é esta: cada euro que pagaria de renda é um euro que nunca mais recupero, e cada mês que continuo aqui é mais um mês de contribuição para a entrada de uma casa. Não é sacrifício pelo sacrifício. É uma decisão com um objetivo muito concreto: poupar o suficiente para a entrada de uma habitação e nunca passar pela fase de arrendar.
Os números
Neste momento poupo cerca de 60% do que ganho, às vezes um pouco mais. Primeiro criei um fundo de emergência — vários meses de despesas cobertas, por precaução — e desde que o fechei, tudo o que sobra todos os meses vai para ações. Não é uma percentagem que surge do nada: viver com os meus pais é o que torna possível essa percentagem. Se tivesse de pagar renda, provavelmente estaria a poupar metade, ou menos.
Por que vale a pena esperar
A razão real por trás disto é o juro composto. Cada ano em que consigo colocar dinheiro mais cedo no mercado é mais um ano de crescimento acumulado, e esses primeiros anos — mesmo que não pareça enquanto os vives — são os que mais pesam a longo prazo. Esperar mais um par de anos antes de sair de casa não é "perder tempo": é dinheiro real que se traduz em chegar mais cedo à entrada de que preciso.
E depois há a renda em si. Para mim, pagar renda durante anos é dinheiro que desaparece sem deixar nada em troca: no final do contrato não tens nem o dinheiro nem a casa. Prefiro aguentar mais uns anos em casa dos meus pais do que começar a pagar uma renda que sei que não me vai devolver nada.
O que sacrifico de facto (e o que não sacrifico)
Seria mentira dizer que não custa nada. Muitas vezes apetece-me mesmo viver sozinho: ter o meu próprio espaço, a minha privacidade, fazer as coisas ao meu ritmo sem depender dos horários de mais ninguém. Isso é real e não o minimizo. Mas para mim a balança é clara: prefiro aguentar esse desconforto durante uns anos em troca de chegar mais cedo a uma verdadeira liberdade financeira.
O que não sacrifico, por outro lado, é a minha vida social nem os meus planos com amigos ou com namorada. Viver com os meus pais não significa viver pior no dia a dia; significa apenas não pagar por um espaço que hoje não preciso de ter nem em propriedade nem arrendado.
A pergunta que sei que me vão fazer
Ainda não aconteceu, mas sei que em algum momento alguém me vai perguntar: "se tens dinheiro para pagar renda, porque não te independentizas já?". E eu compreendo — é a pergunta lógica quando alguém vê que tens o dinheiro para pagar renda e decides não o gastar nisso. A minha resposta será sempre a mesma: poder pagar uma renda não significa que seja a melhor forma de usar esse dinheiro. Para mim, colocá-lo no mercado agora vale mais do que gastá-lo em algo que não me vai devolver nada daqui a dez anos.
Se estás na mesma situação
Se tens 22 ou 23 anos e estás a pensar aguentar mais um pouco em casa dos teus pais para poupar, o meu conselho é simples: define um objetivo concreto e um valor. Não é "ficar em casa indefinidamente", é "poupar X para a entrada de uma casa e, até lá, continuar aqui". Ter o objetivo claro é o que faz a espera sentir-se como uma estratégia e não como estar preso.
Não sei quanto tempo mais vou ficar em casa dos meus pais. Depende de quanto tempo demoro a chegar ao valor que defini. Mas entretanto, cada mês que continuo aqui é mais um mês mais perto de comprar sem nunca ter passado pelo arrendamento.